18 fevereiro 2026 - 06:13
Como assinar o convite de Ramadã?

Entrar no mês abençoado de Ramadã, antes de exigir preparação física para o jejum, requer uma verdadeira “revolução interior” e o esvaziamento do coração de tudo o que não seja Deus, para que o recipiente da alma esteja apto a receber as luzes divinas. Neste texto, analisamos os passos práticos e éticos para acolher esse mês grandioso com base nos ensinamentos autênticos da Ahlul-Bayt (a.s.).

Segundo a agência ABNA Brasil, o limiar do mês de Ramadã é, na realidade, a fronteira entre hábito e adoração. Para o crente que passou onze meses envolvido nas questões mundanas, entrar repentinamente no oceano infinito de Ramadã sem preparação prévia pode resultar apenas em sede e fome. Os sábios da religião afirmam que Ramadã é o fruto de Rajab e Sha‘ban; portanto, a preparação ética para esse mês não é uma simples recomendação moral, mas uma necessidade estratégica para compreender Laylat al-Qadr e alcançar o grau de taqwa, apresentado como o objetivo final do jejum.


Istighfar: limpando o espelho da alma

O primeiro passo na preparação ética é o arrependimento (tawbah) e o retorno a Allah. O coração humano é como uma casa que se prepara para receber um hóspede querido; antes de tudo, deve-se remover as impurezas.

Nas narrativas xiitas enfatiza-se que, se o servo entrar em Ramadã carregando o peso dos pecados, essa carga impedirá o voo espiritual no reino desse mês (1). O Imam Ja'far al-Sadiq destacou a necessidade de buscar reconciliação com as pessoas e quitar os direitos alheios (haqq al-nas), para que o indivíduo entre na hospitalidade divina com responsabilidade limpa e coração sereno.

Além do arrependimento pelos pecados, é essencial também o istighfar pelas negligências. Muitos de nós, ao longo do ano, nos deixamos levar pela rotina e esquecemos o propósito principal da criação. Preparação ética significa despertar o senso de servidão (‘ubudiyyah) e lembrar que somos viajantes cujo destino é a Presença do Senhor.

O Shaykh al-Saduq, no livro Fada’il al-Ashhur al-Thalathah, descreve como os Imames (a.s.) nos últimos dias de Sha‘ban se preparavam para Ramadã com súplicas e humildade (2).


Reformar as relações sociais e aliviar as dificuldades dos outros

A ética de Ramadã não se limita ao tapete de oração e ao tasbih; grande parte dela se manifesta na forma como interagimos com os servos de Deus. O Profeta Muhammad, em seu famoso sermão de Sha‘baniyyah, apresentou o fortalecimento dos laços familiares (silat al-rahim) e a bondade com os subordinados como pilares da preparação para esse mês (3).

Alguém que mantém rancor contra um irmão na fé ou que permanece indiferente aos necessitados não pode afirmar estar preparado para o banquete divino. Allah é Generoso e convida à Sua mesa especial aqueles que também agem com generosidade.

Criar um ambiente de paz e amizade na família e na sociedade suaviza o coração para receber as bênçãos divinas. Nos ensinamentos xiitas, o rancor (shahna’) é apresentado como um grande obstáculo à aceitação das obras. O Imam Ali al-Rida aconselhou Abu Salt al-Harawi a eliminar do coração qualquer rancor contra um crente antes da chegada de Ramadã e abandonar os pecados persistentes (4). Essa purificação interior prepara o terreno para a manifestação dos atributos divinos no jejuador.


Vigilância sobre a língua e os membros: treino antes da competição

A preparação ética exige um período de “treino de concentração”. A língua, os olhos e os ouvidos são portas de entrada para o coração; se não forem controlados, desperdiçam o capital espiritual de Ramadã.

Do ponto de vista da Ahlul-Bayt (a.s.), o jejum verdadeiro não é apenas abster-se de comer e beber, mas jejuar com todos os membros e sentidos. Exercitar o silêncio diante de palavras fúteis, evitar a maledicência e desviar o olhar do ilícito nos últimos dias de Sha‘ban prepara a mente para a serenidade de Ramadã (5).

Outro ponto essencial é ajustar a intenção (niyyah). A sinceridade (ikhlas) é a essência da adoração; sem ela, as ações são apenas um corpo sem alma. O jejuador deve refletir que sua entrada em Ramadã não é mera tradição anual nem apenas busca de recompensas futuras, mas aproximação da santidade divina e fortalecimento da vontade diante dos desejos da alma.

O Sayyid Ibn Tawus, em sua valiosa obra Iqbal al-A‘mal, lembra que o crente deve receber Ramadã com entusiasmo e anseio, como um sedento que alcança a água — não com peso ou aversão (6).


Referências

  1. Al-Kafi, vol. 4, p. 67.
  2. Fada'il al-Ashhur al-Thalathah, p. 95, hadith 82.
  3. Wasa'il al-Shia, vol. 10, p. 313.
  4. Uyun Akhbar al-Rida, vol. 2, p. 51.
  5. Bihar al-Anwar, vol. 93, p. 292.
  6. Iqbal al-A'mal, vol. 1, p. 164.

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